Agrotóxico da soja atinge parreiras e ameaça safra da uva no RS

 17/01/2020

Agrotóxico da soja atinge parreiras e ameaça safra da uva no RS

Laudos comprovam a contaminação de produto em novo polo vitivinícola do Estado e também áreas de oliveiras

A contaminação de parreirais por 2,4-D, um dos defensivos agrícolas usados em lavouras de soja, deve levar produtores de cidades gaúchas a colherem até 40% menos uvas do que o esperado. A região mais atingida é a da Campanha, na fronteira com o Uruguai, onde nos últimos 15 anos vêm se estabelecendo um novo pólo vitivinícola.

Clori Giordani Peruzzo é presidente da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha, que reúne 17 vinícolas. Ela explica que danos foram registrados em Quaraí, Dom Pedrito, Santana do Livramento, Candiota e Bagé, mas variam de acordo com a distância entre parreirais e as lavouras de soja. O prejuízo médio, no entanto, é estimado entre 30% e 40%.

A colheita começou em janeiro, e deve seguir até o início de março. A projeção da quebra de safra é feita com base nas parreiras que não cresceram como deveriam, já que o 2,4-D altera o desenvolvimento das folhas, ramos e cachos. O agrotóxico é o segundo mais vendido no Brasil segundo o Ibama, e é utilizado para eliminar ervas daninhas antes do plantio da soja.

Peruzzo lamenta os prejuízos justamente quando as parreiras estavam chegando ao auge de produção e de qualidade da uva, o que só acontece cerca de quinze anos após o plantio: "Tá todo mundo preocupado porque é impactante no bolso. As parreiras, especialmente de uvas finas, demandam alto investimento e muito trabalho. E agora perder assim.. Porque pegar uma chuva de granizo é da natureza, mas isso não é né".

O problema da contaminação pelo 2,4-D começou há cerca de cinco anos, e está relacionado à expansão da soja pela metade sul do Rio Grande do Sul. Em 2015, o Ministério Público Estadual (MPE) abriu um inquérito para investigar o caso, que está em fase de conclusão. No início de janeiro, a Promotora de Justiça Anelise Grehs, coordenadora do Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais (NUCAM), recebeu os laudos de exames químicos e o relatório final elaborado pela Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e Irrigação.


Foram feitos laudos de 80 coletas de plantas em 56 propriedades rurais. Destes, 69 deram positivo para a presença do 2,4-d. Os resultados se referem não apenas à Campanha, mas também a cidades de outras regiões como Encruzilhada do Sul, na Serra do Sudeste, e Jaguari, próximo a Santa Maria. "É um problema estadual", diz a Promotora.

Uma reunião na última quinta-feira (17) em Porto Alegre buscou uma solução conjunta para o problema, mas não houve acordo entre produtores de uva e de soja. Segundo a promotora, caberá à Promotoria de Justiça de Porto Alegre (com jurisdição estadual) seguir com o inquérito e avaliar possíveis medidas judiciais.

Um dos encaminhamentos em análise é a criação de regras, por parte do Poder Executivo, determinando uma distância mínima de aplicação do 2,4-D de núcleos urbanos e de culturas sensíveis. Grehs também não descarta que seja pedida a proibição do uso do agrotóxico no Estado: "Se se verificar que estas outras providências não são efetivas, não fica descartada esta opção através de uma medida judicial".


FONTE: Revista Globo Rural.



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